Em defesa da Preguiça Inteligente

Quando me perguntam qual é a minha melhor competência profissional, às vezes respondo, em tom de desafio: a preguiça.

Não a preguiça de não fazer. A outra. Aquela que me faz olhar para uma tarefa chata e repetitiva e pensar: quantas vezes mais vou ter de fazer isto à mão?

Chamo-lhe preguiça inteligente.

Sempre me incomodou repetir tarefas que podiam ser simplificadas. Atualizar a mesma informação, preparar documentos semelhantes, analisar dados, repetir uma sequência de passos. Durante anos, a solução foi criar processos, folhas de cálculo, modelos ou procurar ferramentas que alguém já tivesse desenvolvido.

A IA mudou isso.

Em vez de procurar uma solução parecida com o meu problema e depois adaptá-la, comecei a construir com a IA um fato à minha medida.

Mas primeiro tive de fazer algo pouco compatível com a preguiça: investir tempo a aprender.

Comecei pelo mais básico: aprender a conversar com a IA. Explicar contexto, definir o resultado que queria e reagir ao que recebia. Rapidamente percebi uma regra: um mau pedido raramente produz um bom resultado. Nem com uma máquina, nem com uma pessoa.

No início, usava-a apenas para evitar a folha em branco. Pedia uma primeira versão e reagia: “Isto não”, “mantém esta parte”, “está demasiado genérico”, “experimenta desta maneira”.

Pouco a pouco percebi que o verdadeiro ganho não estava em fazer uma tarefa mais depressa. Estava em criar formas de trabalhar que pudesse voltar a utilizar.

Comecei com pequenas tarefas. Depois sequências. Hoje uso IA para resumir informação e preparar respostas, personalizar comunicações, analisar dados, criar dashboards, rever documentos ou sugerir melhorias.

Foi esse o verdadeiro salto: a IA deixou de ser apenas um sítio onde faço perguntas e passou a ser uma ferramenta com a qual desenho processos de trabalho.

Ganhei tempo? Talvez. Prefiro dizer que escolho melhor onde gasto as horas que tenho.

Também aprendi a desconfiar.

A IA consegue inventar informação com uma confiança impressionante. Nem sempre segue o plano que definiu e, se não formos específicos, pode alterar coisas onde não devia ter tocado. Por isso, quanto mais importante é o trabalho, mais claros devem ser os momentos em que a máquina executa e a pessoa decide.

A IA não pensa por nós. E ainda bem. É aí que continuamos a fazer falta.

Se estás a começar, não experimentes vinte ferramentas.

Escolhe uma. Depois escolhe a tarefa que mais detestas.

Aquela que vais empurrando até sexta-feira e faz essa com IA.

Se funcionar, na semana seguinte escolhe outra. Ao fim de um mês talvez não conheças todas as ferramentas de Inteligência Artificial. Mas terás quatro maneiras concretas de trabalhar melhor.

No fundo, a preguiça inteligente é isto: trabalhar menos no que não precisa de nós, para trabalharmos melhor naquilo em que fazemos realmente diferença.

Luís Carmo- Formador da Excelformação