Por Luis Marinho
Em contextos de formação, perguntam-me muitas vezes como operacionalizar a mentalidade de crescimento. A resposta é muito simples, a base não é talento nem um dom especial. É esforço. Por isso, aconselho sempre que apliquem isto a algo o mais mundano possível. Explico com o meu caso.
Vivo num prédio de 7 andares.
Todos os dias, quando chego, repete-se o mesmo momento. Entro, olho para o elevador, rápido, confortável, à distância de um botão e a motivação começa a falar comigo:
“Hoje não.”
“Foi um dia exigente.”
“Mereces descansar.”
Nada disto é mentira. Mas também não interessa. Porque a decisão não é logística. É comportamental.
Tenho duas opções: subir de elevador ou subir pelas escadas. E escolho as escadas.
Não porque me apetece. Não porque me motiva. Não porque “gosto do desafio”. Escolho porque, há muito tempo, decidi que não negoceio com essa tal “motivação”, irmã da outra, a “desmotivação”.
A motivação tenta sempre abrir exceções. Hoje por isto, amanhã por aquilo. E, sem dar conta, o padrão muda.
O que está em causa não são sete andares. É o critério. Se cedo ali, cedo noutros pontos: na preparação que podia ser mais rigorosa, no detalhe que podia ser mais cuidado, no esforço extra que ninguém vê.
A mente aprende rápido e habitua-se à preguiça. Por isso, simplifico. Não discuto. Não justifico. Não avalio como me sinto. Apenas subo.
E depois há o efeito curioso do contraste. Outro dia, noutro edifício de um cliente, onde fui a uma reunião, subi 5 andares. Foi automático e foi “canja”.
Cinco andares que, para muita gente, são motivo para carregar no botão, para mim, foram irrelevantes e fáceis de executar.
Mentalidade de crescimento não é acreditar que “tudo é possível”. Não é estar motivado. Nem sequer passa por querer muito qualquer coisa. É, na sua essência, definir um padrão e executá-lo com disciplina.
A mentalidade de crescimento não acontece em momentos épicos. Acontece nestas decisões pequenas, repetidas, quase aborrecidas.
Podia usar o elevador todos os dias. Mas não uso.
Não estou a treinar pernas. Estou a treinar a minha mentalidade de crescimento. Se calhar está na hora de me mudar para o 9º andar.