Qual a resposta da indústria das bebidas alcoólicas ao crescimento do consumo de bebidas sem álcool e às mudanças dos hábitos dos consumidores?
As bebidas ditas sem álcool deixaram de ser uma categoria de nicho de mercado para se tornarem uma das principais apostas estratégicas das indústrias cervejeira, vínica e das bebidas espirituosas. A razão é simples: o consumidor não está necessariamente a deixar de beber, está a mudar as opções daquilo que coloca no seu copo.
Segundo a IWSR – International Wine and Spirits Research, os dez principais mercados mundiais de bebidas sem ou com baixo teor alcoólico registaram um crescimento de 13% em volume em 2024 e entre 2022 e 2024, 61 milhões de novos consumidores entraram na categoria sem álcool, contra 38 milhões na de baixo teor alcoólico. A IWSR estima que o crescimento anual médio entre 2024-2028 seja de 7% para as bebidas sem álcool, contra apenas 1% para o mercado global de bebidas alcoólicas. Em termos de valor, a categoria deverá acrescentar mais de 4 mil milhões de dólares de valor até 2028.
A cerveja foi pioneira e continua a ser quem continua a liderar esta transformação. Na Europa, a cerveja sem álcool já representa cerca de 7,5% do consumo total de cerveja e cresceu aproximadamente 25% nos últimos cinco anos. Também em Portugal, os dados de 2024 indicaram um crescimento superior a 8% tanto na produção como no consumo.
As grandes marcas perceberam que não basta lançar uma versão 0.0: é preciso normalizar e tornar desejável o seu consumo. A Heineken é o exemplo mais evidente. A Heineken 0.0 está presente em mais de 117 países e, em 2025, chegou a cerca de 10 mil pontos de venda com a embalagem barril em todo o mercado europeu. A marca utiliza patrocínios de enorme visibilidade, como na Fórmula 1 desde 2016, para associar a bebida sem álcool a momentos de convívio e entretenimento com consumo responsável, e não apenas a situações em que “não se pode beber”.
Em Portugal, a chegada da Guinness 0.0, em 2024, foi apresentada como uma das maiores inovações da marca nas últimas 3 décadas. O objetivo é explícito: conquistar novos consumidores e alargar as ocasiões de consumo, mantendo sabor, aparência e códigos da Guinness tradicional.
O Super Bock Group desenvolveu uma estratégia de resposta a esta nova tendência centrada em desalcoolizar sem desvalorizar a experiência de consumo. Ou seja, não se trata apenas de substituir álcool por 0,0%. Trata-se de transformar a categoria sem álcool numa extensão natural das suas grandes marcas, aumentando a frequência e as ocasiões de consumo e captando novos consumidores.
A evolução de Super Bock 0.0 → Carlsberg 0.0 → Somersby 0.0 → novas variantes como Super Bock 0.0 Tropical mostra uma passagem de uma estratégia inicialmente reativa à tendência para uma estratégia mais proativa de crescimento e inovação.
O fenómeno da procura do consumidor pelas bebidas sem álcool acontece à escala mundial e até os mercados considerados de menor escala não ficaram de fora. Exemplo disso mesmo é a Empresa de Cervejas da Madeira, que lançou a sua Cerveja CORAL Sem Álcool já em 2003.
Nos vinhos e espumantes, a transformação é mais recente, mas igualmente relevante. Em Portugal, a plataforma Vinha.pt registou em 2023 um aumento de 10% na procura de vinhos sem ou com baixo teor alcoólico. Internacionalmente, marcas como Nozeco e Not Guilty estão a explorar o território dos espumantes 0.0, procurando transferir para esta categoria a convivialidade e o ritual associados ao vinho espumante.
Em Portugal assistimos recentemente ao lançamento de uma nova empresa – Royale Drinks, cujo primeiro produto lançado em 2026 é um vinho espumante 0.0.
Nas bebidas espirituosas, a estratégia é ainda mais sofisticada: recriar o ritual do cocktail sem o álcool. A Diageo desenvolveu um portefólio com várias marcas que inclui Seedlip, Tanqueray 0.0, Gordon’s 0.0 e Captain Morgan 0.0; a empresa afirma já ser líder mundial em espirituosas sem álcool. A Pernod Ricard, por sua vez, já lançou Beefeater 0.0, com o cuidado de preservar os aromas e códigos da marca original.
Mais do que responder à moderação, estas marcas estão a moldar novos hábitos: colocam 0.0 no bar, associam-no ao desporto e à música, investem em gastronomia e cocktails, e comunicam a moderação e o consumo responsável como uma escolha inteligente e não como uma privação.
O verdadeiro desafio para a indústria é convencer o consumidor a continuar a beber, a socializar e a celebrar escolhendo em cada ocasião, se quer ou não álcool.
Como deve então um vendedor atuar no âmbito desta tendência de mercado?
A resposta para esta questão é simples: através da venda consultiva!
Questões → necessidades → oportunidades → exemplos → soluçãoO vendedor deve focar-se menos em vender “0,0%” e deve focar-se mais no incremento de negócio que provocarão a conquista de novos consumidores e o aumento das novas ocasiões de consumo.
A proposta de valor para o ponto de venda pode ser resumida em quatro ideias:
Atrair → Não perder → Incrementar → Fidelizar- Atrair novos consumidores que procuram alternativas sem álcool;
- Não perder vendas quando um consumidor atual decide não beber álcool;
- Incrementar as ocasiões em que as bebidas sem álcool podem ser consumidas;
- Fidelizar os consumidores oferecendo-lhes uma solução alinhada com os hábitos contemporâneos.
Para se conseguir isto, é fundamental também que haja uma mudança importante de mentalidade: o vendedor não deve apenas convencer o cliente de que a tendência existe; deve acima de tudo mostrar-lhe como pode aumentar a sua rentabilidade através da mesma.
João Vieira- Formador da Excelformação